Reino Unido
Painel papel do estado

Baixo investimento em ciência e tecnologia eleva a desigualdade social

Criada em 17/06/20 23:07. Atualizada em 19/06/20 16:27.

Convidados do Simpósio Ciência, Arte e Educação em tempo de pandemia questionaram noções pré-concebidas como a ineficiência e o papel do Estado

Versanna Carvalho

O Simpósio Ciência, Arte e Educação em tempo de pandemia foi encerrado na terça-feira (16/6) com o painel Ciência, tecnologia e desenvolvimento: o papel do Estado, com o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, o economista e engenheiro Eduardo Moreira e o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Paulo Sérgio de Oliveira Simões Gala. O moderador foi o pró-reitor de Pesquisa e Inovação da Universidade Federal de Goiás (PRPI/UFG), Jesiel Carvalho.

O professor Ildeu Moreira foi o primeiro painelista da noite e trouxe dados históricos sobre a ciência no Brasil, especialmente de 30 anos até o presente, o papel do Estado, perspectivas e desafios para o futuro. "A ciência brasileira avançou muito nas últimas décadas, mas vivemos um momento difícil e temos que planejar o que faremos no momento pós pandemia", comenta.

Ildeu Moreira SBPC

O pesquisador apresentou dados que mostram o desenvolvimento da ciência brasileira em números como o crescimento da pós-graduação, que atualmente o Brasil forma hoje cerca de 20 mil doutores e mais de 60 mil mestres e a conquista pelo Brasil do 11० lugar no ranking da produtividade científica (quantidade de trabalhos publicados) como resultado de investimentos continuados do Estado na pesquisa científica. 

Slide Ildeu Moreira 1

Investimento feito por meio das agências de fomento como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), fundações de apoio à pesquisa (FAPs), instituições federais de ensino superior (Ifes) e instituições de ciência e tecnologia (ICTs) espalhadas pelo País.

Slide Ildeu Moreira 2

"Um dos desafios é aumentar o impacto da ciência brasileira e também melhorar a conexão dela com a inovação tecnológica e social. Esse é um papel fundamental da ciência no mundo todo", diz. Outro desafio é ampliar o acesso do brasileiro ao ensino superior e à pós-graduação. 

Ildeu também mostrou o retorno que o investimento em ciência e tecnologia (C&T) já proporcionou ao Brasil em diversas áreas como agricultura tropical, exploração do petróleo em águas profundas do pré-sal, empresas com forte presença no mercado internacional e na saúde pública. 

Slide Ildeu Moreira 3

"A ciência brasileira tem sido já essencial para a economia e a sociedade e pode fazer muito mais. Nós teremos muito mais condições se tivermos políticas públicas adequada e continuadas para dar retornos muito maiores para a sociedade. Outro ponto importante é que a ciência é muito mais do que aplicação econômica, ela também tem uma finalidade cultural que não pode ser esquecida. Em particular da importância das ciências humanas e sociais", ressalta.

Corrente frágil

Em sua exposição o engenheiro e economista Eduardo Moreira evidenciou o valor da ciência como uma forma de ver o mundo real e sair de uma visão deturpada do mundo e da sociedade. Ele também utilizou a alegoria dos elos da corrente para explicar a importância de uma redistribuição de renda eficiente, que atinja às pessoas e grupos sociais que mais precisam, reduzindo a desigualdade social.

"Assim como nos elos da corrente, a força de um grupo está ligada aos indivíduos mais fracos e não aos mais fortes. A capacidade da corrente de levantar algo depende do elo mais fraco. Por exemplo, uma corrente com 10 elos de ferro e um elo de papel não vai conseguir segurar algo pesado, pois o elo de papel, o mais fraco, vai se romper. A corrente, como um todo se torna fraca", compara. 

Eduardo Moreira

Eduardo Moreira observa que, segundo alguns índices, o Brasil é o País democrático mais desigual do mundo, onde o 1% mais rico concentra a maior parte da renda. Ele também fala da situação dos Estados Unidos (EUA), uma das maiores economias do mundo, e que, mesmo assim, não integra as listas dos 10 países com melhor sistema de educação, saúde e segurança, melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e menos corrupção do mundo. Enquanto que nos países com IDH elevado a desigualdade econômica é bem menor. 

Para o economista, o investimento em ciência e tecnologia pelo Estado é uma das formas de fazer o dinheiro chegar a uma parcela da população, que não é composta por pessoas ricas. O dinheiro que chega a professores, pesquisadores, cientistas, que vão gastá-lo e esse recurso que vai circular na economia e vai deixar um legado de grande importância que é o conhecimento. "A única coisa que nos diferencia das outras espécies que habitam a Terra é que a espécie humana não começa do zero novamente. Recomeça de onde a geração anterior parou. Começamos de onde nossos pais pararam. Quando temos essa ciência dentro de casa, não deixamos mais que elas fujam do País", acredita.

Tecnologia e desigualdade

O terceiro painelista, o economista e professor da Fundação Getulio Vargas, Paulo Gala, destaca que os países mais ricos do mundo são aqueles que têm a ciência mais desenvolvida, que dominam a fronteira tecnológica, são capazes de produzir os bens e serviços mais sofisticados do mundo. "Quando se pensa nos países que estão de fato na fronteira tecnológica são também os menos desiguais. O que significa que ciência, tecnologia e baixa desigualdade caminham juntos", afirma. Na avaliação do pesquisador, no Brasil falta ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico o que explica o fato de o Brasil ser um país pobre e desigual. 

Paulo Gala

Paulo Gala reforça que o Estado é um instrumento de ação da sociedade, com várias esferas e mecanismos, que tem funções muito importantes, que foram sendo criadas ao longo do processo histórico para fazer com que as sociedades funcionem de maneira mais eficiente, inclusive na economia. Alguns dos papéis do Estado são a redistribuição de renda e oportunidades, o socorro durante crises (auxílio na renda do cidadão, investimento em infraestrutura) e investimento em ciência e tecnologia. 

O convidado ressalta que a luta pela ciência e pela tecnologia é muito importante e que também é uma luta pelo desenvolvimento econômico e pela qualidade de vida no sentido de redução de desigualdades. A ciência econômica tem mostrado cada vez mais em seus últimos empíricos que não há redução de desigualdade sem domínio tecnológico. A característica dos países mais ricos e justo do mundo é ter um amplo domínio da tecnologia.

"O Brasil está a anos-luz disso. Não por falta de recursos, eles existem. É muito mais uma concepção equivocada do governo. Uma visão de mundo, a meu ver, míope. É como se a família estivesse com restrição de recursos e resolvesse cortar a educação do filho. É o pior corte que uma família pode fazer e cortar a verba de ciência e tecnologia é matar o amanhã. Sem esses investimentos não haverá desenvolvimento econômico, não haverá ganho salarial, melhora de vida e queda de desigualdade. Essa luta é fundamental. Eu diria que é a luta mais importante que tem que se fazer no debate público para tentar fortalecer essa linha de pensamento", conclui.

Saiba mais sobre o Simpósio

“As Ciências Humanas e as Artes têm respostas para dar”

Simpósio analisa disputas das narrativas em tempos de pandemia

Os caminhos da saúde na Covid-19 é tema de simpósio

Defesa da ciência e tecnologia marca 1º dia de Simpósio

"Está na essência das universidades pensar as novas realidades", afirma Reitor da UFG

Evento que discute o mundo na pandemia começa dia 8/6

UFG realiza evento para discutir o mundo na pandemia

 

Veja os vídeos do Simpósio ciência, arte e educação em tempos de pandemia

Ciência, tecnologia e desenvolvimento: o papel do Estado

Arte, cultura e humanidade(s): reflexões da pandemia

Informação e política na pandemia: narrativas em conflito

 



Fonte: Secom/UFG

Categorias: Notícias Reitoria Coronavírus PRPI PRPG