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Os caminhos da saúde na Covid-19 é tema de simpósio

Criada em 09/06/20 22:04. Atualizada em 10/06/20 09:00.

Painel traçou panorama das pandemias ao longo da história e apontou desafios para políticas públicas no Brasil

Caroline Pires

 

Como as pandemias já vividas podem ensinar a humanidade frente ao avanço da Covid-19? O que os estudos atuais podem indicar? Quais os desafios a serem enfrentados nos próximos anos? Estas foram algumas das questões discutidas ontem, 9/6, na segunda noite do Simpósio Ciência, Arte e Educação, promovido pela UFG em parceria com as demais instituições públicas de ensino superior de Goiás. O painel “Pandemias: passado, presente e futuro” foi moderado pelo prof. Elias Monteiro, reitor do IFGoiano, e contou com palestras dos professores José Alexandre Felizola Diniz Filho (ICB/UFG), Cristiana Toscano (IPTSP/UFG) e Cristiani Vieira Machado, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Confira a live completa no YouTube oficial da UFG.

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A profª Cristiana Toscano iniciou sua fala lembrando que as pandemias assolam o mundo há muitos anos e que sem dúvida a Covid-19 não será a última atingir a humanidade. Contudo, ao longo do tempo, conquistas como a criação de antibióticos e adventos que permitiram a comunicação de forma mais rápida colaboraram para o enfrentamento dos cenários pandêmicos. A professora lembrou que a Peste Bubônica foi a primeira grande pandemia registrada e assolou o mundo no século XIV, matando 150 milhões de pessoas, o que correspondia a cerca de 60% da população europeia. No Brasil em 1974 o país viveu uma epidemia de meningite que resultou também em um sistema de saúde completamente sobrecarregado, interrupção de atividades escolares e orientação de isolamento domiciliar. Segundo ela, em geral, as epidemias recentes tem se desenvolvido a partir de vírus respiratórios de animais que passam a infectar humanos. 

Cristiana Toscano frisou que o monitoramento de cenários potencialmente pandêmicos são acompanhados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “De fato, através do desenvolvimento de vigilância temos sidos capazes de mitigar a carga e a mortalidade das pandemias nos últimos séculos”, considerou.  A professora afirmou que, em geral, o mundo está em um período interpandemico o tempo todo. “Nas últimas décadas, e existe um mapeamento grande sobre isto, temos acompanhando eventos com potenciais epidêmicos, mas em geral eles cumprem alguns critérios, mas não todos. Mas com a Sars-Cov2 temos um vírus que tem não só a capacidade de sofrer mutações, mas outras características adaptativas importantes e por isso se tornou uma pendemia”, explicou.

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A professora lembrou ainda a importância da cooperação internacional de monitoramento de doenças para permitir o menor impacto das epidemias em todo do mundo. “Foi isso que permitiu a rápida resposta mundial ao H1N1 e a pandemia do Sars-Cov2”, considerou. Cristiana Toscano ressaltou que antes mesmo da declaração da pandemia no mundo o estado de Goiás já criou um comitê para o acompanhamento da infecção, ação que é capaz de gerar grandes benefícios para o enfrentamento da infecção.
Realizando uma avaliação do avanço da Covid-19 desde o início dos primeiros casos na China, a professora destacou que hoje, 9/6, são quase 7 milhões de contaminados no mundo e mais de 400 mil mortes. “Em relação ao futuro, ainda temos muitos aspectos importantes para conhecer e avançar”. Segundo ela algumas perguntas são fundamentais para conhecer melhor a doença. “Qual é a proporção dos infectados que ficam doentes? Qual o papel dos assintomáticos na transmissão? Qual a proporção dos infectados que ficam doentes?”, levantou questões a médica.
Mesmo diante desse fato, a médica entende que há perspectivas muito boas para o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde. Por fim, a professora reforçou a importância da transparência na divulgação de dados e a necessidade de articulação intersectorial para enfrentar a pandemia da melhor forma possível.

Modelagem e expansão em Goiás

O prof. José Alexandre Felizola Diniz abriu sua fala explicando como o estudo populacional, que já era desenvolvido na Pós-graduação de Ecologia e Evolução da UFG, pode ser aplicado para estudar a expansão da Covid-19. “Essa modelagem passou a ter uma importância vital para entender como a pandemia se expande e a partir daí tomar uma série de ações para reduzir a velocidade de expansão por meio da organização de dados de forma global”, explicou.
Segundo o professor, a taxa de crescimento é um ponto chave para que se possa pensar o desenvolvimento da doença dentro da lógica de crescimento de infecções em populações. “Se eu tenho uma população que a taxa de infectados é maior do que a taxa dos que se recuperam temos um alerta que a pandemia está crescente ainda”, explicou.

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José Alexandre afirmou que naturalmente ao longo do tempo a quantidade de indivíduos susceptíveis vai ficando mais raro medida que a doença avança. “Assim, por exemplo, em Goiás com nossa população de 7 milhões de habitantes caso a doença cresça de forma muito rápido, nós teremos mais susceptíveis de ser contaminado do que recuperados da Covid-19. Aumentando o isolamento social nós diminuímos a chance de um crescimento muito vertiginoso de pessoas acometidas pela infecção”, afirmou.
Em seguida, o professor iniciou a apresentação do modelo que vem sendo construído por ele, em parceria com a prof.ª Cristiana Toscano (IPTSP) e prof. Thiago Rangel (ICB). “Em março nós vivemos uma grande medida de isolamento social e conseguimos reduzir bastante o crescimento do número de transmissões. Infelizmente as pessoas começaram a abandonar esse distanciamento e o aumento do dados começa se apresentar no modelo”, apresentou.
Por fim, o professor apresentou os três cenários possíveis para o desenrolar da pandemia em Goiás. “Em nossa última nota técnica ficou bem claro que chegamos ao nível mínimo de isolamento no estado. Em um pior cenário possível podemos estimar mais de 5 mil mortes no final de julho”, finalizou.

Políticas públicas na saúde

Conduzindo a última palestra da noite, Cristiani Vieira Machado, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ressaltou a importância e a necessidade de eventos como o Simpósio realizado pelas IFES de Goiás para promover o debate em defesa da vida. A professora construiu sua fala a partir da perspectiva das políticas públicas para a saúde hoje e ao longo da história do Brasil, reforçando que o Sistema Único de Saúde reflete o direito do acesso à ações de saúde para todos os cidadãos brasileiros ao longo de seus 30 anos. “Mesmo países com sistemas de saúde bastante estruturados foram muito atingidos por essa pandemia e nós infelizmente estamos realizando poucos testes. Sem dúvida os casos estão subestimados no nosso país”, considerou a pesquisadora.

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Cristiani Machado ressaltou que o enfrentamento da crise sanitária da Covid-19 exige diversas frentes de ação que requerem uma coordenação federativa e intersetorial. “Neste sentido, dada toda a dinâmica mundial é preciso considerar que nós precisamos lidar com uma série de fatores que vão desde a capacitação técnica de profissionais de saúde a situações de vulnerabilidade social de grande parte da população”, considerou. A professora apresentou ainda as diversas ações realizadas pela Fundação Oswaldo Cruz em frentes de atuação diante da pandemia que englobam tanto pesquisas, quanto capacitações e ações de comunicação sobre a doença.
Como grande desafio para o período pós-pandemia a pesquisadora reforçou a necessidade de monitoramento no retorno gradual de atividades. Segundo ela, para isso toda a população deverá enfrentar um processo de adaptação social em diversos aspectos da vida. “Acredito que se tem uma lição que a pandemia nos traz é a necessidade de um Sistema Único de Saúde forte para toda a população independente do pagamento”, concluiu.

Fonte: Secom/UFG

Categorias: Notícias Coronavírus