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A música brasileira perde Henrique de Curitiba

Por Mayara Jordana. Criada em 20/02/08 07:53.
Artigo da professora Glacy Antunes, ex-diretora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, presta justa homenagem ao compositor

A morte de Z. Henrique Morozowicz, Henrique de Curitiba, um dos mais importantes compositores brasileiros da atualidade, entristece família e amigos e significa profunda perda para a Música do Brasil.

Tarefa difícil descrever personagem tão rico e complexo, misto de gentleman e autoridade, detalhista ao extremo, austero na vida pessoal, grande amigo de seus amigos e, sobretudo, músico primoroso.

Pai orgulhoso, Henrique de Curitiba, que foi casado com a musicista Ulrike Graf  -  com quem formou o celebrado “Duo Schubertiano” de piano a quatro mãos( 1968/1976)  -  deixa um casal de filhos, Karina (casada com Gonzaga) e Alexis (casado com Graziela), dois lindos netos, Thales e Luísa e ainda um netinho por chegar em maio, na Espanha. Nos últimos anos, Henrique dedicou especial carinho e obras muito significativas à musicista goiana Gyovana Carneiro.

O compositor, que iniciou seus estudos de piano com a mãe, Wanda Lachowski Morozowicz, manteve sempre estreito convívio com seus irmãos, Milena e Norton, ambos também artistas; os três prosseguiram a tradição familiar iniciada com a avó, Natália Morozowicz, atriz renomada de grande carreira na Polônia, depois com o pai, Tadeuz Morozowicz, bailarino e coreógrafo formado no Teatro Nacional de Varsóvia e na Escola Imperial de Ballet de Saint Petersburg, fundador, em Curitiba, da primeira Escola de Dança Clássica do país.

Parceiros, tanto na vida familiar como também na musical, Norton e Henrique formaram o Duo Morozowicz, de flauta e piano, que gravou vários discos e apresentou-se em recitais e concertos por todo o Brasil.

Dono de personalidade singular, marcante, elegante, que impressionava pelo amplo conhecimento, Henrique Morozowicz passou a ser conhecido como Henrique de Curitiba desde 1954 quando foi para São Paulo estudar piano com Henry Jolles e composição com H.J.Koellreuter; era pianista, organista, professor, compositor e músico exigente que exerceu funções administrativas importantes para a Música do Paraná como a Direção da EMBAP , Coordenador do Curso de Educação Artística da UFPR, Presidente da Sociedade Pro - Musica de Curitiba, Coordenador da Programação Nacional de Musica (FUNARTE/UFPR), Membro do Conselho Estadual de Cultura do Paraná.

Destaca-se a amplitude e diversidade da produção - instrumental, vocal, coral e orquestral - deste compositor paranaense, cujo catálogo de obras é objeto de grande interesse por parte da comunidade musical brasileira e também do exterior. Henrique de Curitiba teve seu Catalogo de Obras “Henrique de Curitiba Morozowicz” publicado primeiramente em 1977 pelo Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores sendo que em 1997 foi lançado em Curitiba o Catalogo Temático: Henrique de Curitiba organizado pelas pesquisadoras Liana M. Justus e Miriam C. Bonk.

São inúmeras suas atividades a ressaltar, desde o talento pianístico do jovem Henrique que, nos idos de 1960, representou o Brasil no Concurso Internacional de Piano de Varsóvia e estudou na Escola Superior de Musica da capital da Polônia; cursou Mestrado na Cornell University (1980,EUA), assistiu apresentações de suas obras corais nos Estados Unidos (2001) e  em Amsterdam e Utrecht ( 2006), viu edições de seus trabalhos impressas na Bélgica e teve sua música sempre incluída nas Bienais Brasileiras de Música Contemporânea realizadas no Rio de Janeiro, inclusive na última (out. 2007) quando foi ouvida sua Cantate cum Gaudio, obra coral com texto em latim.

Henrique de Curitiba foi também um pouco Henrique de Londrina e -  como é possível? -  Henrique de Goiânia: viveu por alguns anos em Londrina, participando da vida artística desta cidade que também amava e na qual foi Diretor Artístico e Professor do Festival Nacional de Música. No dizer do próprio Henrique “...nessa cidade, pude me dedicar mais especialmente á musica coral e às composições para voz, segmento da musica que passou a me interessar cada vez mais. Nesse período, participei de vários Festivais de Musica tradicionais dessa cidade, onde várias de minhas obras foram executadas e gravadas.  Celebrei também em Londrina os 50 anos de atividade como compositor, fato comemorado com varias apresentações de minhas obras e a edição de um CD comemorativo. Ainda nesse período, tive várias obras executadas e publicadas no exterior.”

Em 2003, mudou sua residência para a cidade de Goiânia, em Goiás, convidado para Professor de Composição e Matérias Teóricas na Escola de Musica e Artes Cênicas da UFG. No período passado em Goiânia, importantes obras foram escritas e dedicadas a músicos daquele estado como Corre, corre pra Goiânia, capricho para piano quatro mãos; Três Cantos Goyanos, para canto e piano; Comentários sobre uma obra de Mozart, para piano solo; Bons Ditames, variações corais; Três Estudos Pontuais, para violão; Canção para a moça que passava, canto e piano; Morena, moreninha, para canto e piano.

Acontecimentos significativos ocorreram em 2006 na profícua vida do compositor: participou da apresentação de Musica Brasileira realizada pelo coral Hollands Vocaal Ensemble dirigido por Fokko Oldenhuis, em Amsterdam e Utrecht, com as obras Soneto de Amor, Tinturero Calma e Lua Macumbê; teve realizado, em sua homenagem, um concerto de suas obras, na programação SESC/EMAC em Goiânia; recebeu homenagem na série de concertos do HSBC de Curitiba, “Terças Clássicas” com inclusão das obras Três Estudos Pontuais, interpretados por Eduardo Meirinhos e Variações Frére Jaques, interpretadas por Glacy Antunes; realizou um recital de obras próprias para a série “Concertos Goiânia Ouro”, da Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia.

Em 2007, Henrique Morozowicz volta a residir em Curitiba, participa do lançamento do CD da Camerata Antiqua de Curitiba no qual foram gravadas suas Cantigas do bem Querer e escreve suas últimas obras: Outono Dolente, para Coral a capella, dedicado ao Coral da FOSGO, Goiânia;  Suíte Paranaense, versão para flauta e piano (da obra apresentada em Goiânia, 1996); Suíte Dançante, para piano 4 mãos (versão da mesma obra para quinteto de sopros), Impressões da Lapinha, para flauta e piano e Constatação Fatal,  ária humorística para barítono/baixo e piano, com texto de J. Zokner, em homenagem ao próprio autor da letra.

Vale destacar que composições de Henrique de Curitiba estão incluídas em aproximadamente 42 LPs e/ou CDs, com gravações realizadas em Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro, Londrina, Brasília, Goiânia e também no exterior, na Alemanha, Bélgica, Holanda, nos Estados Unidos (Texas e Califórnia), na Argentina e na Itália.

Suas obras estão editadas em vários países, além do Brasil e é fascinante a quantidade e qualidade de suas 59 composições corais  - Canções e Madrigais a capella, Canções e madrigais  para vozes iguais a capella, Formas maiores de inspiração religiosa ou vivencial a capella ou com instrumentos e outras formas menores, também a capella, inspiradas em Música religiosa.

Perde o Brasil, perde a família, perdem os amigos, ficam as referências em Dicionários, Guias e Livros e, principalmente, será sempre ouvida a Música imortal de um ícone paranaense, representante da forte etnia polonesa a qual tinha particular satisfação em pertencer: falava e escrevia excelente polonês, mas sempre se dizia autêntico Compositor Brasileiro, amálgama de genética, formação, tradição e vivências.

Curitiba, 18 de fevereiro de 2008
Glacy Antunes de Oliveira,

Doutora em Música e professora titular da Emac-UFG

Fonte : Ascom/UFG

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