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Editora UFG lança as obras completas de Carmo Bernardes

Em 23/10/26 16:47.

Três livros inauguram as publicações, tendo o Cerrado como personagem fundamental

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Texto: Aline Carrijo

Um precursor da luta em defesa do Cerrado. Essa é uma das denominações pelas quais Carmo Bernardes ficou conhecido. Antes mesmo de a luta ambiental se tornar globalmente discutida, o escritor já alertava sobre os perigos do desmatamento e o fim dos modos de vida de suas populações tradicionais. Nascido e criado no meio rural, o escritor era um apaixonado e profundo conhecedor do bioma.“Meu pai sabia cada passarinho, como ele voava, como ele levantava, como ele fazia tudo, porque ele observava tudo. Nos mínimos detalhes”, recorda sua filha, Ana do Carmo. O lançamento de suas obras completas pela Editora UFG reforça a importância de preservar e difundir uma produção literária profundamente ligada ao Cerrado. A iniciativa integra o projeto “Biblioteca Goiana”, voltado à recuperação e à salvaguarda da obra de escritores fundamentais para a história e a cultura do Estado, e vai ser realizada na quarta-feira (25/11), às 18h30, no auditório do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais de Goiás (Adufg Sindicato), em Goiânia. A coleção tem início com a publicação de três volumes em novembro deste ano: o livro de contos Vida Mundo (que completa 60 anos de seu projeto original), Jângala – Complexo Araguaia e a coletânea A Ressurreição de um Caçador de Gatos, obra vencedora do prêmio cubano Casa de las Américas de 1991. 

Nascido em Patos de Minas (MG), Carmo se mudou para Formosa (GO) com a família em 1920, aos 5 anos de idade. Alfabetizado em casa por sua mãe, dona Sinhana, viveu na roça até os 30 anos, quando migrou para a cidade e iniciou sua trajetória na imprensa e na crônica. Homem de múltiplos ofícios, Carmo foi lavrador, marceneiro, jornalista e também dentista de populações ribeirinhas. Ana do Carmo conta que essa era a forma que ele encontrava para conciliar sustento e paixão pela natureza. “A gente ainda não estudava, então íamos lá para a praia, ficávamos de dois a três meses, e ele atendia a toda aquela população ribeirinha que tinha por ali. Ele passeava, pescava e trabalhava”. 

Essa convivência íntima moldou sua consciência ecológica. Já em 1945, Carmo Bernardes proferia palestras para proprietários rurais alertando sobre a degradação da terra, o assoreamento de rios decorrente da erosão e os benefícios da conservação das matas ciliares. "Seu pioneirismo está exatamente nessa junção entre natureza e vida social”, define o jornalista e documentarista Pedro Novaes. "No início do movimento ambientalista global nos anos 1960, havia uma visão que isolava a natureza da humanidade. Décadas mais tarde, o Brasil ganharia destaque no cenário internacional com o conceito de socioambientalismo, compreendendo as populações tradicionais como parte do equilíbrio dos ecossistemas. Muitos anos antes, contudo, Carmo já entendia essa relação como intrínseca", comenta o jornalista. 

Para Marlon Salomon, historiador e um dos organizadores das obras completas, Carmo não se separava do Cerrado: era a própria Vida Mundo. “O Cerrado para o Carmo é o próprio mundo que ele reconstitui nos seus livros, é o mundo do qual ele faz parte. O Carmo não é um cientista que fala do Cerrado como um ecossistema que existe por si só. O Cerrado para o Carmo é o próprio mundo em que ele nasceu, cresceu, viveu, e no qual aprendeu a viver”, destaca Salomon. 

Para Hamilton Carneiro, apresentador do programa Frutos da Terra, a leitura de Carmo Bernardes é um patrimônio indispensável. “Eu diria que o Carmo é o sujeito que estudou Goiás, estudou o Cerrado, estudou o meio ambiente e que precisa necessariamente ser estudado. É um desses autores nacionais que precisam ser lidos”.

 

Fonte: Editora UFG

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