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“Esperançar deve engajar a luta coletiva para a produção de transformação social”

Em 04/09/20 17:03. Atualizada em 04/09/20 19:11.

Prof.ª Rosana Pinheiro-Machado ministrou a Aula Magna que marcou a retomada do semestre letivo 2020-1 inspirando a comunidade acadêmica

Texto: Caroline Pires

 

Como um abraço caloroso e cheio de esperança em meio a dura realidade vivida pelo mundo e cada membro da comunidade acadêmica da UFG na pandemia da Covid-19, Rosana Pinheiro-Machado ministrou a aula magna de retomada do semestre letivo 2020-1 na universidade hoje, 3/9. A professora iniciou a aula retomando a sua trajetória acadêmica e suas pesquisas sobre as alterações sociais pelas quais o Brasil passou desde o início dos anos 2000 e que colocou os cidadãos, hoje mais do que nunca, em uma encruzilhada entre a esperança e o desespero. Defendendo a esperança como algo que deve ser aprendido e que desperta a ação e a transformação, Rosana Pinheiro-Machado trouxe aos participantes um olhar lúcido sobre a atual realidade brasileira e a necessidade da luta coletiva para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. A antropóloga e socióloga formada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul é atualmente professora da University of Bath, Inglaterra.

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"Estamos aqui pois acreditamos que podemos nos levantar. Não se trata de uma vã esperança”


A pesquisadora brasileira iniciou nos anos 2000 seus estudos antropológicos na maior periferia da cidade de Porto Alegre junto a trabalhadores domésticos, comerciantes informais e jovens. Ela explica que neste período foi possível acompanhar uma transformação em muitos cidadãos que gera reflexos ainda hoje. Segundo a pesquisadora, no trabalho de campo foi possível perceber o nascimento de uma linguagem e a presença de palavras que trouxeram para aquelas pessoas de forma inédita conceitos sobre beleza, se sentir bem ou entrar pela porta da frente. “Contudo, esse empoderamento individual era visto de forma limitada pois ele não traz diretamente transformação social. Este sentimento individual de se sentir livre tem que evoluir para algo de transformação social”, considerou a pesquisadora. Seguindo o seu discurso, ela afirmou que os reflexos daquele período brasileiro são sentidos ainda hoje no país. “As netas e as filhas dessas mulheres que foram empoderadas individualmente estão hoje em um ponto do empoderamento coletivo, atuando em coletivos, ingressando em universidade, buscando curso técnicos e ocupando espaços que antes não lhes era permitido” afirmou. Ela lembra que naquele tempo havia um projeto de esperança em nível nacional para o Brasil. “Foi criada uma brecha naquele período, mesmo de maneira limitada e contraditória, em que as pessoas conseguiam ver um horizonte de possibilidades mais alargado. Algumas camadas tiveram sua capacidade de sonhar ampliada”, analisou.
A pesquisadora lembra que os moradores da periferia do Brasil que são frutos de uma geração que teve acesso maior ao consumo, tiveram seus sonhos encerrados abruptamente. Relembrando os movimentos de 2013 a professora considera que o sonho se transformou em um momento de austeridade e desespero para muitos. “Se antes havia uma imagem de brilho sobre nosso país, hoje o que mais circula de imagens sobre o Brasil são as covas abertas. Fizemos uma virada muita abrupta somada a um contexto de fascismo, violência e negacionismo”, afirmou. É a partir desta ótica que a professora entende que hoje os cidadãos brasileiros estão entre o desespero e o que fazer para vislumbrar a esperança.
Relembrando Paulo Freire, Rosana Machado-Pinheiro defendeu a necessidade da esperança como elemento central e essencial na luta e na transformação social. “A esperança é algo que precisa ser aprendido. Ela amplia os sujeitos e se trata de um impulso de explorar e transformar em meio a situações que ainda não são. É um princípio de realidade e não de fantasia”, explicou. Seguindo este raciocínio, a pesquisadora entende que a existência humana não pode existir sem sonho. “Se não fosse pela esperança, às aulas na UFG nem seriam retomadas. Estamos aqui pois acreditamos que podemos nos levantar. Não se trata de uma vã esperança”, encorajou a professora.
A pesquisadora lembrou também que hoje nas universidades há exatamente esta geração pulsante oriunda de famílias que não puderam nem ao menos vislumbrar a possibilidade de uma educação superior décadas atrás. “Essa energia não morreu, ela está nas escolas e nas universidades e apesar de todas as resistências seguem buscando conhecimento. Nós da comunidade acadêmica temos que lutar não só por vacinas ou acolhimento dos alunos, mas também em pensar como navegar contra as bases autoritárias e conservadoras que vem de muito mais tempo do que os últimos anos no país”, considerou. Convidando os participantes a pensar sobre um Brasil real e as contradições que constituem o povo brasileiro, a professora convocou os professores e trabalhadores da educação a assumir a responsabilidade e não deixar ser fechada a brecha de esperança coletiva que foi aberta anos atrás. “Nós estamos no lugar dos serviços essenciais. Não podemos parar”, concluiu.
Ao final da aula magna, Rosana Machado-Pinheiro respondeu a questões que foram publicadas durante a transmissão ao vivo, realizada pelo YouTube Oficial da UFG. Confira a aula magna completa.

Ações para a retomada das aulas na UFG

A vice-reitora da UFG, Sandramara Matias Chaves, deu as boas vindas aos participantes da aula magna convidando toda a comunidade para pensar e enfrentar juntos o desafio da pandemia da Covid-19 e a retomada as atividades de ensino a partir do dia 31 de agosto, conforme aprovação do Conselho Universitário. A vice-reitora defendeu que a retomada do semestre se deu graças a um trabalho coletivo de toda a universidade. “Deixo meu agradecimento a todos aqueles que deram grandes contribuições para que conseguíssemos chegar a retomar as aulas com muitas discussões e colaboração para esse aparato do ponto de vista legal, de formação e de atividades pedagógicas em função dos nossos estudantes, que são a nossa razão de ser”, destacou. O reitor da UFG, Edward Madureira Brasil, apontou que a esperança é conquistada pelo conhecimento e que mesmo diante todas as dificuldades as universidades públicas continuam resistindo e se posicionando em um contexto de perda de direitos sociais. 

Solidarizando-se com as famílias que perderam parentes para o novo coronavírus, a pró-reitora de Graduação da UFG, Jaqueline Civardi, destacou que a UFG tem desenvolvido uma série de ações para garantir no ensino o desenvolvimento das ações com qualidade, isonomia e inclusão para a retomada das atividades acadêmicas. Entre as ações adotadas pela Prograd está o franqueamento do Regulamento Geral dos Cursos de Graduação, E-book que aporta diretrizes para o desenvolvimento de atividades didático pedagógicas e uma Instrução Normativa que estabelece os fluxos para o dia a dia das aulas. “Estamos lançando o programa Pró-Unidades que é uma rede de apoio para o Nossa ideia é desenvolver e promover uma ação cada vez mais colaborativa em defesa ao ensino. Juntos e unidos venceremos esse momento”, agradeceu. Laerte Guimarães, pró-reitor de pós-graduação, reforçou o empenho da gestão da universidade desde o início da pandemia em garantir que as várias atividades da UFG fossem não só mantidas, mas ampliadas e prezando pela qualidade. “A UFG é muito maior do que o momento que estamos vivendo. Vamos seguir com resiliência e empatia”, concluiu.

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Fonte: Secom/UFG

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