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50 anos de História

Criada em 12/12/18 12:31. Atualizada em 13/12/18 08:43.

No ano em que é comemorado o cinquentenário do Curso de História na UFG, comunidade acadêmica se reúne para celebrar o presente e rememorar o passado

Texto: Aline Borges
Fotos: Carlos Siqueira

Era 1968 e o Brasil fervilhava mudanças sociais que afetariam o futuro do país. Neste ano, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) foi promulgado, houve a Reforma Universitária, que gerou o desmonte e reformulação de diversas instituições federais. Em meio a tudo isso, no dia 19 de novembro mais especificamente, o Curso de História da Universidade Federal de Goiás (UFG) foi oficialmente reconhecido, e, para celebrar esta data, a comunidade acadêmica reuniu-se na terça (04/12) para fazer memória aos que por aqui passaram, homenagear os que fazem da faculdade um espaço de aprendizado e construção do conhecimento e, enfim, resgatar a história da História.

“Quando a gente olha um pouquinho para trás e vê as condições com que tudo isso começou, nós temos que dizer que possuímos uma responsabilidade muito maior porque, a partir de um sonho, de uma ideia, da coragem de meia dúzia de pessoas, se constituiu tudo isso que a gente tem aqui hoje”, afirmou o reitor da UFG, Edward Madureira. Olhar para trás pressupõe voltar ao passado para compreender o presente. O tempo, neste sentido, é um dos maiores instrumentos de trabalho do historiador. “Mas, qual é a forma do tempo? Qual símbolo representa a ideia do tempo histórico?”, indagou a professora Eliesse Scaramal ao apresentar a logomarca criada para marcar o cinquentenário.

A Comissão do Cinquentenário da Faculdade de História colocou-se, então, nessa missão de resumir em símbolos cinquenta anos de História. Assim, os membros da comissão fizeram seu papel como cientistas. Pesquisadores que são, vasculharam a história do mundo, do próprio curso e chegaram a um marco simbólico simples, mas repleto de significado. A logo traz um fundo amarelo com tarjas pretas cobrindo palavras em latim escritas em pequenas letras, retratando a repressão de uma época em que a liberdade de cátedra e expressão foram usurpadas.

O cinquenta, por sua vez, ganhou forma baseada na cultura dos povos Ankan da África Ocidental. O zero foi transformado na representação de um “Sankofa”, que na tradição é representado pela imagem de um pássaro com a cabeça voltada para trás. A simbologia do termo remete à ideia de que “nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou atrás”, sempre podemos aprender do passado, construir sobre as suas fundações. Em outras palavras, é um apelo que diz volte às suas raízes e construa sobre elas, explicou Scaramal, especialista em história da África.

Foi o que Lena Castello Branco fez. A professora, que esteve presente desde o começo, caminhou a passos cuidadosos para compor a mesa do evento e, sentada à frente do auditório, levou a plateia a uma viagem no tempo. Fez com que todos olhassem para trás, fizessem memória àqueles que vieram antes, que edificaram as estruturas simbólicas da Faculdade. “Era um tempo em que tudo estava por ser feito e a febre da criação e do pioneirismo mostrava-se contagiante”, ela lembrou e acrescentou ainda “centrarei minha fala nos anos que eu diria ser a pré-história do curso de história da UFG, cuja raízes remontam ao Centro de Estudos Brasileiros dirigido pelo poeta, ensaísta, professor Gilberto Mendonça Teles, sobrevivente como eu”.

 

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Lena relembra os momentos de lutas e vitórias nestes cinquenta anos

Pré-história

“A Universidade Federal de Goiás, criada em 1960, inseria-se num clima de arrojo que expirava Brasília, o qual iria possibilitar o deslocamento no eixo das decisões nacionais do litoral para o interior do país”, lembra a professora emérita. Eram tempos de mudança. Foi neste contexto que, segundo a pesquisadora, tudo começou no Centro de Estudos Brasileiros (CEB), o qual “tratava-se de iniciativa ímpar que se voltava para a criação e funcionamento de um grupo de ensino, estudo e pesquisa voltados para o Brasil, que, com currículos e programas, propunha valorizar a cultura regional”, explica.

O local passou a funcionar em 1953 como um grande avanço, visto que possibilitava a formação de mais bacharéis buscando formação na área de Estudos Brasileiros. Este programa exigia que os alunos passassem por um vestibular para ingressarem na instituição, mas, como o objetivo era expandir o conhecimento, era ofertado também o Curso de Estudos Goianos, o qual estendia-se a toda comunidade não visando necessariamente a carreira acadêmica e dispensava a prova de admissão.

Tudo caminhava a passos esperançosos até que veio 1964. “Com o clima de turbulência política, o CEB foi fechado. Era motivo de preocupação, dentre outros, o destino dos alunos que tinham se matriculado ou frequentavam regularmente a instituição” relembra Lena. A preocupação em realocar os estudantes desalojados de sua matriz acadêmica fez com que a então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFG abrisse suas portas para recebê-los. Neste contexto, foi necessária a criação do Departamento de Geografia e História como parte do corpo da unidade em 1965.

De acordo com a professora, a estrutura para o recém-criado departamento, que passou a funcionar na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, na Rua 82, esquina com a Avenida 85, não era a ideal. “As condições eram extremamente precárias, o espaço exíguo. Não havia biblioteca, nem sala de reuniões, nem cantina, faltavam funcionários, técnico administrativos, a situação dos docentes era completamente incerta do ponto de vista contratual e trabalhista”. Entretanto, ela reafirma a vontade por parte dos docentes de impulsionar o ensino e a pesquisa em Goiás apesar dos percalços do caminho. A importância das unidades acadêmicas se fazia nítida aos que buscavam conhecimento. “As nossas faculdades de filosofia surgiam como unidades inovadoras, voltadas que eram para o estudo de Filosofia, Ciências e Letras, marcadas até então pelo autodidatismo ou, quando possível, a cursos quase inacessíveis no exterior”, explica.

Mesmo em um cenário de lutas e incertezas, em 1966, o curso de Geografia e História realizou “a Primeira Semana de Estudos Históricos com a finalidade de promover a atualização de conhecimentos”. Lena conta que, na ocasião, “questões teóricas foram debatidas e foram colhidos depoimentos dos fundadores de goiânia”, tudo fruto do anseio de professores, alunos, pesquisadores por registrar a história da região central do Brasil. Até que veio 1968.

 

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Como registro do cinquentenário a FH recebeu uma placa com os nomes dos 1700 historiadores formados na unidade

 

Recomeços

Era dia 19 de novembro de 1968, quando, por meio do decreto 63.636, o então presidente Costa e Silva oficializou e reconheceu o curso de História. Entretanto, uma semana depois, em 28 de novembro, o Decreto número 5.540, o qual firmava novas formas de “organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média”, fez com que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras se desmembrasse em institutos e faculdades distintas. A Lei ficou conhecida como Reforma Universitária, a qual tornaria mais explícitos os planos do governo para a educação. “Não deixa de ser uma contradição o reconhecimento do curso – juntamente com o de Letras, Ciências Sociais e Geografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás. Tal reconhecimento, porém, naqueles tempos obscuros previa intervenções militares, cassação de professores, censura às disciplinas, instituição de reitores ‘biônicos’, fora a repressão estudantil”, explicou o professor e representante da Comissão do Cinquentenário, Ivan Lima, na leitura do manifesto dos 50 anos.

“Nada é simples nem fácil na vida”, irrompeu Lena. “Superadas as dificuldades iniciais, atendidas as exigências formais, tornava-se possível aquilo que os fundadores sempre tiveram em mente: preparar novas gerações para assumirem uma sociedade que, acreditava-se, deveria ser mais justa e mais humana, até porque a educação haveria de possibilitar que assim fosse”. O caminho, porém, seguia tortuoso. Era 1968, afinal, ano de promulgação do AI-5. “Entre salas emprestadas, professores afastados, visitas de interventores, o Curso seguiu e, em 1969, foi transformado em Departamento, acompanhando o desmembramento da Faculdade de Filosofia e implantação do Instituto de Ciências Humanas e Letras, na Praça Universitária”, destacam os membros da comissão.

Anos 80 e uma nova época se inaugurava. “Apesar de ainda sob a nebulosa sombra da ditadura civil-militar”, registrou-se no manifesto. Foi neste período que o Curso de História fora definitivamente transferido para o Campus Samambaia, local mais afastado do centro urbano e com arquitetura própria do período vigente. A mudança propiciou o aumento no número de vagas na graduação e atraía cada vez mais pessoas para a vida acadêmica.

Nesta ótica, resiliência sempre mostrara ser um conceito fundamental para os pioneiros da História. Neste sentido, o reitor ressaltou o caráter intrínseco de resistência da instituição de ensino e, nos dias atuais, não poderia ser diferente.. “A história nos colocou nesse momento e nós não podemos fugir dele. Eu tenho certeza que essa universidade, e o conjunto das universidades federais, é forte o suficiente para enfrentar qualquer desafio que se apresente porque temos estrutura, competência intelectual, temos amor por essa casa, temos uma comunidade extremamente aguerrida e consciente do seu papel perante a sociedade”, declarou. “Sinto que, hoje, a universidade está vivendo o melhor momento de sua vida, com tudo que produz e com o que tem. Sinto que agora a universidade vai se fazer chegar à sociedade”, completou a professora Maria Sônia França, uma das homenageadas da tarde.

 

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Edward Madureira e Lena Castello Branco, um encontro de gerações

 

História, presente

Se reconhecida durante um contexto de mudanças extremas no cenário nacional, aos cinquenta anos, a Faculdade de História, vê-se novamente frente a novas transições nas quais a necessidade de reafirmar sua função perante a sociedade torna-se uma forma de garantir a legitimidade do trabalho dos mais de 1700 alunos egressos da unidade. De acordo com Edward Madureira, neste contexto é necessário que as universidades façam-se fortes e presentes. “A missão de vocês, das humanidades de uma maneira geral, é fundamental para a gente compreender e atravessar esse período que se apresenta com a gente”. Ele utilizou também das palavras do professor Sérgio Paulo, que faleceu no começo deste ano, para dizer que “alguém precisa explicar o que está acontecendo nesse país nesses últimos tempos” e esta é a missão dos historiadores.

O fato é que não existe presente sem passado. Relembrar a história é importante para compreender o porquê de seguir em frente. O desafio atual é, então, o de continuar a existir. “Para nós significa muito celebrar essa data, sobretudo neste contexto atual, essa conjuntura política que atravessa o país, em que há um certo temor de que as humanidades, e portanto o curso de História, venha sofrer algum tipo de cerceamento no âmbito da liberdade de cátedra, da liberdade de ensino dos nossos conteúdos”, afirmou o diretor da unidade, Eugênio Rezende.

O professor ressaltou ainda a importância de valorizar a figura do historiador, seu papel perante a sociedade. “Consideramos que isso é um momento importante diante da necessidade de valorizar não só o curso de história, mas também a própria história enquanto conhecimento. Então, é uma forma também de chamar atenção para o fato de que os cursos de histórias são importantes, os historiadores são importantes e tem muito a contribuir com a sociedade brasileira”, finaliza. A fala do diretor é reforçada por Ivan que acredita que  “celebrar os 50 anos de história também é uma oportunidade para a comunidade acadêmica que faz a Faculdade de História se conhecer, reunir e, enfim, se perguntar se questionar acerca do ofício do historiador hoje”.

À indagação, Leandro Mendes explica que, apesar de muitos acreditarem que a profissão se resume em explicar o passado, o seu lugar é sempre o presente. “Nós não fazemos previsão do futuro, não temos este poder de prever, mas nós temos a capacidade de compreender o que nos levou a isso e compreender esses processos”, explica. Nesta perspectiva, Leandro olha para o contexto atual do Brasil, das universidades públicas, as angústias de muitos que se deparam com o que chamou de “novo”, mas enxerga também todas as narrativas contadas por Lena e tantos outros professores e alunos que por lá estiveram e sente-se capaz de afirmar que tudo passa.

Segundo o professor, “estamos vivendo uma transição, um momento de mudanças relativamente importantes no ponto de vista dos valores, da própria democracia. Há uma percepção geral de que uma era se encerra”. Assim, “há uma certa angústia. E ouvindo os colegas que passaram momentos de atribulações, momentos difíceis, eu disse ‘tudo passa’. E eu acho que esse é um momento de criar um certo apaziguamento, um certo distanciamento. Não em relação ao tempo passado, mas em relação a esta angústia que perpassa a todos nós num momento em que essas mudanças estão batendo à nossa porta e muitas vezes a gente fica com medo”, tranquilizou o pesquisador, que reafirmou a necessidade de mostrar o papel relevante da universidade hoje, sobretudo para o Centro-Oeste, região onde a Faculdade de História ajudou a escrever o passado e resgatar suas memórias. É, enfim, o instante da História se fazer presente!

 

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Fachada da Faculdade de História alterada para o cinquentenário

Fonte: Secom UFG

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