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Encontro discute arte e educação para indígenas e quilombolas

Por Gustavo Motta. Criada em 23/11/18 12:20. Atualizada em 28/11/18 15:34.

Encontro com lideranças locais debateu a realidade da aprendizagem nas comunidades

Texto: Gustavo Motta

Fotos: Nathalia Cruz

Com o objetivo de integrar os discentes por meio de discussões sobre aprendizagens e vivências no âmbito das manifestações locais, o Projeto Integrando Saberes: Diversidade, Arte e Cultura promoveu, no dia 20 de novembro, um encontro sobre arte e educação para comunidades indígenas e quilombolas. O evento foi realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual, da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (PPGACV/FAV/UFG), e contou com a presença de dois representantes de comunidades localizadas no nordeste brasileiro.

O encontro ocorreu no auditório da FAV/UFG, onde estudantes, professores, e visitantes se sentiram bem-vindos para contribuir com o diálogo sobre conhecimentos adquiridos pela experiência e compartilhados na academia. “Considerando que a nossa faculdade agrega um conjunto de saberes, pensamos em criar uma iniciativa para integrar, tanto os graduandos, quanto os membros do nosso programa - enfim, para permitir trocas e compartilhamentos de saberes no âmbito da comunidade acadêmica”, avalia a professora Leda Maria Guimarães, coordenadora do PPGACV/UFG.

Os convidados foram Alecksandra Sá e José Ilton Bezerra, representantes das comunidades de Tiririca dos Crioulos e do povo Kapinawá, oriundos do interior de Pernambuco. A vinda dos convidados foi possibilitada pelo contato com Larissa Isidoro, discente do programa - mais conhecida como “Aia”. Mirna Anaquiri, primeira estudante indígena a defender uma dissertação de mestrado na UFG, foi outra discente que colaborou com a iniciativa. Ademais, estavam presentes os professores Bráulio Vinicius Ferreira (diretor da unidade acadêmica) e Marlini Dorneles de Lima (Coordenação de Ações Afirmativas - CAAFf/UFG). Na área externa ao auditório, itens de artesanatos foram expostos para a comercialização.

encontro educação indigena quilombola

Leda Guimarães: "pensamos em criar uma iniciativa para integrar, tanto os graduandos, quanto os membros do nosso programa"

artes indígenas

Itens de artesanato foram disponibilizados para a comercialização na área externa ao auditório

Resistência

Bráulio Ferreira elogiou a iniciativa, e destacou a importância da discussão a respeito do potencial que a arte tem para empoderar as pessoas e transformar o meio onde vivem. O professor lembrou que a FAV conta com cerca de 1200 alunos, 70 professores e 27 servidores técnico-administrativos. “Nesse sentido, é muito bom pertencer a uma comunidade tão ampla e criativa, mesmo que os momentos vindouros apresentem dificuldades - nesse aspecto, creio que desempenhamos um papel de resistência”. O diretor da FAV/UFG acredita que produzir conhecimento e arte é a melhor forma possível para a faculdade enfrentar e superar desafios.

“Esse é o momento em que temos muitos estudantes negros e indígenas recebendo seus diplomas, sendo recebidos pelo mercado ou ingressando na pós-graduação”, comemorou. O mesmo posicionamento foi defendido pela professora Leda Guimarães, que avaliou as ações afirmativas com importantes para a constituição de uma comunidade acadêmica, cada vez mais plural, inclusiva e diversificada. “O nosso programa, desde o começo, tem recebido pessoas, temas e interesses de pesquisa que contemplam as questões étnico-raciais, indígenas e identitárias, como um todo”, avaliou.

“Contudo, ainda temos desafios. Contamos com apenas uma professora negra e não temos nenhum docente indígena”. No entanto, a professora acredita que a iniciativa propõe abrir espaços para discussões que contemplem diversas identidades e, portanto, não podem retroceder em ações. “É válido lembrar que a UFG foi uma das primeiras instituições com Educação Superior Indígena”, destacou. Na atualidade, a Universidade conta com 250 ingressantes quilombolas e 141 indígenas pelo Programa UFGInclui. “Na FAV/UFG, são oito indígenas e quatro quilombolas, aproximadamente”, destacou Marlini Dorneles.

Braulio

Professores Leda Guimarães (esquerda) e Bráulio Ferreira (centro) em destaque; Alecksandra Sá à direita

Permanência

Contudo, desde 2009, apenas 17 cotistas se formaram desde 2009. Desse total, cinco são indígenas e 12 quilombolas. “Ainda existe um grande desafio para manter esses graduandos na Universidade”, destacou Mirna Anaquiri. Nesse sentido, a pós-graduanda destacou que, se na graduação ainda existem demandas que precisam ser atendidas ou melhor contempladas, as reivindicações dos estudantes de mestrados, doutorados e especializações ainda precisam ser ouvidas. “Alguns serviços, como moradia e auxílio em alimentação, são voltados apenas para os alunos das graduação”, lamentou.

Mirna destacou que um dos auxílios, voltado exclusivamente para graduandos, corresponde a uma bolsa para indígenas e quilombolas. O benefício é oferecido pelo Ministério da Educação (MEC), por meio do Programa de Bolsa Permanência (PBP). O valor da bolsa corresponde ao praticado pela União na concessão de bolsas para iniciação científica, o equivalente a 400 reais. “Contudo, quando entrei na UFG (2009), ainda não existia essa bolsa, que começou a ser implantada em 2014”, afirmou. Ademais, a discente destacou a obtenção da bolsa enfrenta alguns entraves.

“Existem muitas dificuldades burocráticas, além de que o benefício ainda não atende ao número ideal de pessoas - no fim das contas, muitos abandonam a universidade, pois não são devidamente contemplados pelas políticas de permanência”, lamentou. Ao destacar os desafios de sua trajetória na Universidade, Mirna citou o seu interesse por temas de pesquisas que contemplam a educação sobre os povos originários. “Ao longo de minha passagem pelo doutorado, eu fui até uma escola da periferia, onde conversei com as professoras sobre como se dava o ensino a respeito dos povos indígenas”.

Antes, no mestrado, a estudante conversou com crianças entre oito e nove anos de idade. “Eu percebi que ainda se reproduz uma grande quantidade de estereótipos a respeito desses povos”. Nesse sentido, foram levados vídeos, textos e imagens, com o objetivo de pensar, junto aos educadores, como trabalhar a imagem dos indígenas na educação básica. A doutoranda avalia que, como o centro de discussões necessárias nas escolas, as culturas afro-brasileira e indígena ainda precisam ser tratadas com maior respeito às vivências dos povos representados por tais culturas, no âmbito da academia.

Mirna sobre permanencia

Mirna Anaquiri: "ainda se reproduz uma grande quantidade de estereótipos a respeito dos povos indígenas"

Vivência

Alecksandra Sá destacou que veio de uma comunidade indígena e quilombola. Trata-se da comunidade de Tiririca dos Crioulos, cuja história, transmitida pela oralidade, conta que o assentamento se deu pelo casamento entre um homem negro e uma mulher da nação Pankará. “Por isso, eu costumo dizer que, mesmo sendo uma mulher negra, me refiro como quilombola e, também, indígena - pois essa é a nossa origem e, se negasse a origem Pankará, negaria parte das minhas origens”, ressaltou. A convidada é coordenadora de apoio das escolas Pankará, situadas no município de Carnaubeira da Penha, cidade pernambucana localizada nas proximidades do rio São Francisco.

Em memória à origem do quilombo indígena, Alecksandra conta que ainda existe o costume de se promover o casamento de mesmo tipo entre as pessoas. Contudo, a coordenadora lembrou que, ao longo da infância, estudou em ambientes hegemonicamente brancos, onde não teve a oportunidade de afirmar suas origens. “Inclusive, era muito discriminada, especialmente pela cor da minha pele - diziam que eu era suja”, lamentou. Ademais, enquanto estudante, a convidada costumava passar despercebida no meio das outras crianças: “era invisível e, com receio de como os outros agiriam em relação a mim, costumava me calar”.

Nesse sentido, Alecksandra conseguiu transformar as memórias, as dores e sofrimentos em locomotivas para a luta pela auto-afirmação de seu povo e pela emancipação dos crioulos-pakarás, quanto à educação e arte. “Uma manifestação nossa é a reunião, sempre às sextas-feiras, para dançarmos o Toré”, afirmou, se referindo ao estilo de dança tradicional dos povos originários, que honra a ancestralidade. A música é geralmente entoada pelo “toante”, acompanhado de gritos ritmados, danças, lutas e brincadeiras. “É uma momento para expressar o que somos”.

Outras formas de expressão consistem nas receitas culinárias e medicinais, além do artesanato, oriundo de produtos encontrados na localidade. Atividades com palha e argila fazem parte do processo de estimulação criativa e assimilação dos conhecimentos coletivos sobre o uso de tais recursos no dia-a-dia. “Além disso, temos trabalhado muito com a cultura do esporte - aproveitamos que as crianças gostam de futebol, então usamos essa atividade como meio de aprendizado, para capacitar o trabalho em equipe e exercitar a lógica matemática”.

Educação

Ao longo das falas de Alecksandra, o público percebeu como a vivência cotidiana e a educação caminhavam juntas, visto que a educação de povos tradicionais e originários não atende à circunscrição espacial, típica das escolas nas grandes cidades. Contudo, o espaço das escolas também existe entre a comunidade local. “Temos três escolas indígenas, onde oferecemos a educação básica para nossas crianças, sendo que ambas são conveniadas com o governo estadual”. Nesse sentido, a coordenadora destacou o desafio de conciliar a educação tradicional com a educação padronizada pelo governo.

“Nós temos um Projeto Político Pedagógico (PPP) para abordar a cultura indígena, abordando a história de nosso povo e a memória dos anciãos, além de tratar a arte como forma de fazer com que a criança entenda que pertence ao contexto e ao local”. No entanto, o material didático é encaminhado por Recife, sendo padronizado, com os conteúdos das escolas regulares. Alecksandra destacou que cabe aos professores separar os conteúdos e adaptá-los à realidade, com autonomia pedagógica. “São livros válidos para quem vai prestar um concurso, ou fazer a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mas precisamos destacar o nosso conhecimento, necessário para a convivência”.

“É mais fácil, até para a criança ou jovem, aprender algo que está presente em seu dia-a-dia”, avaliou. No entanto, a coordenadora acredita que, às vezes, a educação local tem sofrido com o que avaliou como “descaso das autoridades”. Portanto, Alecksandra afirma que ainda existe um esforço, do poder oficial, pelo apagamento da educação tradicional: “Em 2010, além das escolas mantidas sob o estado, tínhamos uma escola quilombola em convênio com a prefeitura, que foi fechada de modo arbitrário”, denunciou. Nesse sentido, Roberto de Mané Miguel, um importante líder local, foi responsável pela reestruturação da educação quilombola, por meio da criação de um projeto intitulado “Do Buraco ao Mundo”.

Iniciado em 2013, a experiência permitiu o retorno da escola, sob cuidados da comunidade. “Fizemos um abaixo-assinado, com várias assinaturas, para legitimar a necessidade dessa escola e justificar o porquê de, mesmo sob a agressão da prefeitura, termos reaberto o espaço - mesmo sob uma tentativa de nos calar e impor o ensino exclusivo sobre a cultura do branco”. Roberto é um líder religioso, responsável por um centro espírita onde, conforme a convidada, ocorrem consultas e atividades de cura. “O espaço se chama Casa Grande, e funciona como um centro para o nosso povo”, concluiu.

Alecksandra

Alecksandra Sá destacou as vivências na educação com o povo indígena-quilombola de Tiririca dos Crioulos

Identidade

José Ilton, a quem todos conhecem apenas por “Ilton”, destacou a importância do índio conhecer e assumir a própria identidade. “A invasão do homem branco começou em nossa região, no nordeste - por isso, temos uma mistura de portugueses, holandeses e povos nativos diversos”, apontou. Contudo, frente aos questionamentos sobre o que é “ser índio”, diante de tamanha miscigenação, afirmou: “O índio não é a cor dos olhos, não é o cabelo fino e liso - quem é como a gente, é pelo coração, pela união e pela luta, da qual não abrimos mão, por nossas culturas e nossas terras”.

“A arte indígena é tão importante, para nós, quanto o oxigênio, a roupa, a comida”, avaliou. O convidado é coordenador pedagógico das escolas Kapinawá, povo que reside entre os municípios de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim - agreste e o sertão pernambucanos. Ao expressar a vivência de seu povo com as artes, Ilton ressaltou que “o índio sem arte é um índio no vácuo”. 

“Viver o nosso cotidiano é resistir, nas conversas, nas brincadeiras, nas músicas, e nos adereços, como os colares e cocares”. Nesse sentido, a educação Kapinawá tem se voltado integralmente à educação da cultura. “Todo ano, o governo do estado pede que encaminhemos um calendário, respeitando a nossa contagem do tempo - inclusive existem comunidades originárias onde todas as atividades ocorrem durante seis meses”. Contudo, na observância das datas oficiais, o coordenador destacou que a atividade pedagógica visa respeitar o contexto indígena: “por exemplo, no 19 de abril, considerado ‘Dia do Índio’, nós trabalhamos, pois temos as consciência de que todos os dias são nossos”.

Invisibilidade

O convidado confidenciou que, muitas vezes, os índios se tornam invisíveis em espaços majoritariamente brancos. “Quando não ficamos às escuras, somos considerados estranhos, alienígenas, ou seres exóticos”, lamentou. O coordenador lembrou uma ocasião, na qual recebeu o convite para viajar até uma universidade carioca. No entanto, foi realizado um pedido para que não se identificasse como Kapinawá. “Eu recusei, pois não poderia negar aquilo que sou, nem renegar minha própria essência”, lamentou. “Temos resistido a quase 519 anos de repressão, e devemos continuar sempre afirmando aquilo que somos”.

Para Ilton, existe uma série de estereótipos que, caso não estejam presentes em quem se afirma indígena, modulam a opinião das pessoas sobre “ser índio”, “índio falso” ou “índio de verdade”. Um dos mitos populares sobre o nordeste é a ideia de que não há povos originários na região, crença que, para o convidado, precisa ser combatida. Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o nordeste abriga a segunda maior população de povos originários no país - 27% do total brasileiro. “Vivemos em um país pluricultural, onde precisamos reforçar essa diversidade, cuja fomento parte pelo respeito e reconhecimento às nossas diferenças”.

“Esse respeito, a gente enxerga em quem se disponibiliza a conversar com a gente, a nos ouvir - como faziam os médicos cubanos, que se deslocavam às regiões onde, muitas vezes, profissionais brasileiros não podiam ou não queriam ir”. O líder local lembrou o respeito desses profissionais de saúde: “dava para perceber a satisfação que eles tinham no exercício da atividade - fomos respeitados por pessoas que vieram de fora do país, enquanto, muitas vezes, recebemos o desprezo de pessoas daqui”, avaliou, enquanto apontava a atuação governamental no cotidiano da comunidade.

Ilton

Da esquerda para a direita: Alecksandra e Ilton, convidados que abordaram as suas vivências em educação com povos tradicionais

Formação

“Nós temos trabalhado com convênios, firmados com o governo estadual”. No entanto, os contratos mantidos são temporários, sendo renovados constantemente desde 2002. “Eles alegam que o custo é menor, e que o impacto financeiro é mais viável, mas isso inviabiliza um desempenho melhor da educação que podemos oferecer”. Diante dos desafios para educar as crianças e jovens kapinawás, Ilton aponta que, muitas vezes, a própria imagem dos povos indígenas é ensinada de modo inadequado. “Sem uma orientação adequada, apenas com base nos livros didáticos que recebemos, às vezes fica difícil se reconhecer indígena”.

“Uma colega contou uma história, certa vez, de uma professora que mandou fazer um trabalho sobre os índios, mas apenas sobre ‘índios de verdade’”, lembrou. Sendo assim, o convidado acredita que é necessário problematizar a forma que os indígenas são representados na educação básica. Nesse contexto, Ilton conta que a comunidade já produz livros e outros materiais didáticos para lidar com os estudantes em aulas específicas, mas reforça que o espaço de aprendizagem precisa corresponder ao meio de convivência. “Não ensinamos ninguém a ser pajé, guerreiro - essas características surgem ao longo da juventude - a cultura indígena não pode ser ensinada em uma sala”.

Desse modo, Ilton diferenciou a arte indígena da arte contemporânea, ao destacar que, enquanto a segunda precisa ser ensinada, a primeira “vem de berço”. O coordenador afirmou que o governo sugeriu o ensino combinado de ambas, contudo houve resistência: “são diferentes, enquanto uma é repassada, a outra é a afirmação da identidade de quem nasceu com essas raízes - no mais, a comunidade é quem promove essa socialização, é ela quem forma a pessoa, de acordo com as necessidades do cotidiano”. Portanto, o que a sociedade de padrão hegemônico tende a denominar “educação de campo”, corresponde à educação tradicional indígena em sua essência.

“O nosso lema diz que ‘a educação regular ensina a ler, escrever e contar - mas quem forma o índio é a comunidade”. Sendo assim, é o contato diário com saberes da mata, sabores, texturas, aromas e credos que desempenham a constituição do “ser índio”, de modo que o indivíduo continue se afirmando enquanto indígena em qualquer lugar, inclusive nos espaços hegemônicos.

Fonte: Secom/UFG

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