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Pesquisa da UFG desvenda as formas de violência obstétrica

Por Caroline Pires. Criada em 13/03/18 08:08. Atualizada em 13/03/18 08:18.

Pesquisa mostra que os profissionais acabam naturalizando a violência e a justificam como culpa da própria mulher

Texto: Carolina Melo

Ilustração: Gabrielle Carneiro

 

O significado atribuído à violência obstétrica por médicos e enfermeiros vinculados à rede pública de saúde foi investigado por pesquisa inédita no país, realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG). A maioria dos profissionais de saúde acompanhados pelo estudo admitiu a violência como parte do cotidiano das unidades de saúde, apesar de negar as agressões como fruto de sua própria ação. A outra parcela, no entanto, mencionou a terminologia como descabida, criada para degradar os profissionais.

 De acordo com a pesquisadora Mayara Guimarães, foram os médicos e enfermeiros mais antigos e tradicionais que apresentaram dificuldades para entender o que seria a violência obstétrica. Também não demonstraram compreensão aprofundada sobre a humanização do parto. “Mostraram-se inflexíveis sobre as formas de assistência que não permitem autonomia à mulher e assumiram uma postura defensiva, negando a violência”, afirmou.

Mesmo entre os profissionais de saúde que reconheceram a violência obstétrica, não foram todos os tipos de agressões percebidas como práticas rotineiras. Além do abuso físico e verbal, a pesquisa também identificou um tipo de violência mais sutil e imperceptível, chamada de discriminação. “É aquela atitude que desqualifica a mulher, como se ela não fosse capaz de compreender o parto e sua condução”, explica Mayara. De acordo com o estudo, a conduta do profissional se move entre atitudes que buscam a humanização no atendimento e ações que tentam minimizar o protagonismo da mulher, dando margens ao aparecimento das violências. “E os profissionais conseguem enxergar a violência mais gritante, como a física, mas não percebem as nuances de discriminação e também o tom de voz grosseiro”.

Motivadores

A rotina, a alta demanda das unidades de Saúde Pública onde a pesquisa foi realizada  que exigem um atendimento rápido e um parto acelerado por procedimentos, a precariedade dos recursos humanos e físicos, a falta de capacitação foram alguns dos motivos elencados pelos profissionais de saúde como potencializadores das situações de violência. Outro condicionante citado foi a falta de informação da mulher sobre o período da gravidez, parto e pós-parto, resultado de um pré-natal falho.

“Os profissionais reclamam que a mulher não tem a compreensão sobre o que é um trabalho de parto, como e quando ele se inicia. Afirmam que elas chegam sem documentos e ali na emergência não têm tempo de orientá-las da forma adequada”, afirma Mayara Guimarães. De acordo com a pesquisa, os profissionais de saúde sabem que a violência existe, vivenciam-na e, de alguma forma, naturalizam-na e a justificam como culpa da mulher. “Portanto, saiu nos resultados a culpabilização da mulher, ficando muito clara a violência de gênero”.

Segundo o professor da Faculdade de Enfermagem (FEN-UFG) e orientador da pesquisa, Marcelo Medeiros, um caminho de rompimento desse cenário é a educação direcionada aos profissionais que atuam e aos acadêmicos. “Esse debate tem que ser feito. A violência obstétrica é rotineira, naturalizada, banalizada. É preciso falar para poder perceber que ela, de fato, existe. É preciso falar para tentar minimizar sua prática”, afirma.

 

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