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Estudos revelam trajetórias de sobreviventes da II Guerra Mundial

Por Patricia Veiga. Criada em 10/10/17 16:07. Atualizada em 10/10/17 16:46.

Memórias e narrativas de migrantes e refugiados teuto-brasileiros são o foco de historiadores que apresentaram resultados de pesquisa na UFG

Texto: Patrícia da Veiga

Fotos: Adriana Silva

Em visita à Universidade Federal de Goiás (UFG), pesquisadores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) apresentaram resultados de estudos feitos com a comunidade teuto-brasileira a partir da metodologia da História Oral. O encontro foi promovido pela Faculdade de História na quinta-feira (05/10), no âmbito do evento O Brasil e as Guerras Mundiais – Temas, Problemas e Fontes de Pesquisa.

Méri Frotscher, docente da Unioeste, expôs recortes de uma pesquisa que iniciou em 2009, quando passou a investigar a trajetória de alemães que viviam no Brasil, regressaram para o país de origem ao final da década de 1930 e dez anos depois foram novamente repatriados. A professora passou a se interessar por essa fração possível da população migrante ainda no início dos anos 2000, quando desenvolvia tese de doutorado a respeito da elite política do Vale do Itajaí (SC). “Ao manusear documentos do período, percebi que mais ou menos em 1938 alguns sujeitos ativos na política deixaram o espaço público. Isso me intrigou”, comentou.

A partir de uma primeira entrevista realizada com um brasileiro filho de alemães que viveu na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, a historiadora colheu pistas para iniciar sua investigação – que culminou em um pós-doutorado. Cruzando informações, ela constatou que, somente entre 1937 e 1939, cerca de 8 mil cidadãos alemães teriam retornado ao seu país. Talvez, em decorrência das perseguições políticas empreendidas pelo Estado Novo. Ou em razão de uma massiva propaganda a respeito da recuperação da economia alemã.

Com a experiência da guerra e do nazismo, muitos desses alemães, já em 1948, retornaram ao Brasil por meio de uma missão humanitária realizada pelo governo brasileiro, que integrou força-tarefa para contribuir com os problemas populacionais da Europa no pós-guerra. “Encontrei no Itamaraty registros de pessoas que foram repatriadas duas vezes”, destacou.

No bojo dessas idas e vindas haviam experiências que mereciam ser melhor compreendidas. Por isso o esforço da historiadora em buscar narrativas de migrantes. “Optamos por trabalhar a partir de uma perspectiva transnacional, já que essas famílias tiveram trajetórias transnacionais, viveram em dois mundos diferentes”, explicou Méri. Ao todo, foram 21 entrevistados que forneceram detalhes de suas histórias de vida, impressos tanto na própria fala como em documentos pessoais, cartas, diários e álbuns de fotografia.

No exercício de interpretação de todos esses documentos, as trajetórias pessoais e familiares forneceram pistas de como os sujeitos vivenciaram a guerra, como lidaram com o nazismo e como construíram diferentes camadas de passado. Em muitos casos, as dores não foram mencionadas explicitamente, mas apareceram em sonhos, versões para um fato não necessariamente vivido e representações. Nesse sentido, para Méri Frotscher, a memória se tornou uma ferramenta importante para a historiografia. “A memória é um fenômeno social, vai sendo modulada nas relações e nas experiências”, analisou.

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Para Méri Frotscher, acervo pessoal dos interlocutores fornece possibilidade de reconstituição de uma memória coletiva

Suábios do Danúbio

Narrativas identitárias em uma localidade fundada por refugiados da Segunda Guerra Mundial no Brasil” foi o estudo apresentado pelo professor Marcos Nestor Stein, também da Unioeste. Desde 2000 ele acompanha uma comunidade localizada no centro do Paraná, no distrito de Entre Rios, município de Guarapuava, formada por “suábios do Danúbio”.

Essa é a denominação usada para identificar um povo de origem germânica que no século XVIII transitou entre o sul e o sudeste da Europa. “O termo foi cunhado por geógrafos em 1920 para designar pessoas cujos antepassados se deslocaram de várias partes do antigo Sacro Império Romano-Germânico rumo ao antigo Império Austro-Húngaro”, explicou o professor. Depois da Primeira Guerra Mundial, a região habitada pelos “suábios do Danúbio” seria, em partes, incorporada à Alemanha e a Áustria, mas também desmembrada em novas nações como Hungria, Iugoslávia (hoje, Sérvia e Croácia) e Romênia. Na Segunda Guerra Mundial, os suábios ou apoiaram o governo alemão ou formaram suas próprias milícias, o que fez com que, no fim da década de 1940, fossem perseguidos e presos por tropas russas.

Foi na condição de deslocados e refugiados de guerra que, na década de 1950, os “suábios do Danúbio” chegaram ao Brasil e, por intermédio do governo, se instalou em 22 mil hectares localizados ao centro do Paraná, a 400 quilômetros da fronteira com o Paraguai. Ali foram criadas cinco vilas de colonos que posteriormente se tornaram parte do distrito de Entre Rios, situado no município de Guarapuava.

Em sua tese de doutorado, Marcos Stein estudou como se deu a construção identitária dos colonos de Entre Rios, a partir dessa trajetória dos refugiados e também em relação ao novo habitat. Constatou que houve esforços para associar a imagem dos suábios como povo próspero e trabalhador. Além das entrevistas, ele usou como fontes de pesquisa jornais, livros e também acompanhou a formação da Fundação Cultural Suábio-Brasileira. A partir de 2012, um novo projeto de pesquisa se aprofundou na busca pela memória das pessoas do lugar, ouvindo também os brasileiros que habitam a região.

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Chegada dos "suábios do Danúbio" no Porto de Santos, 1948. Fonte: Fundação Cultural Suábio-Brasileira 

Evento

Além dassa conversa sobre a comunidade teuto-brasileira, o evento O Brasil e as Guerras Mundiais – Temas, Problemas e Fontes de Pesquisa também promoveu debates sobre imigração japonesa e imprensa e religião na Primeira Guerra Mundial. Realizado entre os dias 4 e 6/10, o encontro teve como objetivo lembrar os 75 anos da declaração de guerra do Brasil ao Eixo. De acordo com o professor Jiani Fernando Langaro, da Faculdade de História da UFG, a ideia não foi promover um estudo sobre história militar, mas sim realizar reflexões sobre as consequências do período. “Nossos estudos caminham na direção de pensar as comunidades de migrantes e suas relações com as guerras, bem como os direitos humanos”, salientou. Em novembro, serão organizadas sessões de cine-debate sobre o mesmo tema.

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Méri Frotscher, Jiani Langaro e Marcos Stein em debate sobre migrantes e refugiados no contexto da Segunda Guerra Mundial

Fonte : Ascom/UFG

Categorias : História Oral Memória comunidade teuto-brasileira Última Hora

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