Weby shortcut
Bandeira Reino Unido
Youtube da UFG
Instagram da UFG
Picasa da UFG
Radio universitária
TV UFG
CCE

Ciência e pós-graduação em Educação Física em debate

Por Carolina Melo. Criada em 18/09/17 13:50. Atualizada em 19/09/17 09:01.

Mesa-redonda refletiu sobre a ciência enquanto um campo de disputa hegemônica

CCE

Texto: Carolina Melo

Fotos: Carlos Siqueira

A análise histórica e as perspectivas da pós-graduação em Educação Física na América Latina foram os temas debatidos nesta segunda-feira (18/9) na mesa-redonda que compõe a programação do XX Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e VII Congresso Internacional de Ciências do Esporte. As falas dos debatedores giraram em torno dos interesses geopolíticos da ciência, que quase sempre se esbarram com os interesses da América Latina.

Segundo o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Valter Bracht, é bastante claro que os interesses geopolíticos, atrelados aos interesses econômicos, influenciam os centros de pesquisa nas temáticas e na forma de se fazer as investigações científicas. “É senso comum que a ciência tem papel importante num projeto de desenvolvimento. Mas de qual desenvolvimento estamos falando? Se for o desenvolvimento da América Latina, qual o papel que essa região do continente desenvolve na Aldeia Global? O lugar que a ordem econômica destina é o de subordinação”, disse.

CCE

O professor fez a retomada histórica do desenvolvimento da pós-graduação na área da Educação Física para demonstrar a polarização que se gerou quando a prática científica quis se desvincular do campo da Educação Física. Realidade ilustrada, inclusive, com o surgimento das novas nomenclaturas, como a própria “ciência do esporte”. “Isso suscita a polarização da identidade epistemológica do campo”.

Ainda segundo Valter Bracht, a produção de conhecimento é fortemente disciplinar. “Não temos uma pós-graduação propriamente em Educação Física, pois falta o compartilhamento de uma problemática teórica própria da área”. As disciplinas, segundo ele, pouco ou nada dialogam entre si. “Temos um campo multidisciplinar, longe de ser interdisciplinar”. Em sua análise, a Educação Física ciência se desloca da Educação Física vida. A primeira fecha-se a si mesma e se recusa a exigência clássica de pensar o pensamento. “A produção de conhecimento científico promove uma espécie de esvaziamento intelectual”, afirmou.

Por outro lado, na avaliação do professor da UFES, os pesquisadores são pressionados a buscar interlocuções não com América Latina, e sim com os países de língua inglesa, o que significa fazer referências aos estudos publicados nesses países, bem como desenvolver pesquisas que se articulam com problemáticas dominantes. “No Brasil há uma diminuição dos projetos e pesquisas vinculados à subárea sociocultural e um processo de extinção da subárea pedagógica”.

Em diálogo com Valter Bracht, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Luciano Mendes, observou que falar em democracia e emancipação no campo científico parece ser heresia. “Mas essa heresia é fundamental especialmente nos tempos de hoje. É absolutamente central que nós dos campos científicos façamos intervenções políticas”. Segundo o professor, é absolutamente impossível sair da crise na área da ciência sem discutir o cenário político.

O professor Luciano Mendes apontou a relação umbilical que existe entre ciência e pós-graduação no Brasil. “Uma das características fundamentais desse sistema é o fato de que no Brasil primeiro se organizou a pós-graduação para depois se chegar ao sistema de pesquisa”. Segundo o docente, apesar de sermos referencia inclusive na América Latina, exportando o sistema de avaliação Lattes e a Capes para outros países, pouco se discute que esse sistema foi desenhado no âmbito da Ditadura Militar brasileira, enquanto um projeto de Estado.

Os sinais da crise, segundo o professor, começaram a surgir na década de 1990, devido à hipertrofia do sistema Capes, que sempre teve mais dinheiro para financiamento, do que o CNPq tinha para financiar a pesquisa. “A avaliação, então, que deveria ser para aferir o sistema passou a determinar os seus rumos e os financiamentos. Cada vez mais a avaliação migrou da avaliação do programa para a avaliação dos indivíduos que o compõe”. Conforme Luciano Mendes, se de um lado a crise é de financiamento (o sistema cresceu e o financiamento não acompanhou), de outro, é também de um modelo de financiamento. Os recursos são assentados à formação. “Temos bolsas, mas não temos dinheiro para a pesquisa. Trata-se de um modelo refratário à ciência, à tecnologia e às demandas sociais”.

Como solução, para o professor, deve-se investir financeiramente na ciência e os financiamentos devem ser alocados não para os indivíduos e sim para o programa de pesquisa em rede. Mais do que isso, os riscos devem ser incentivados e as pesquisas vinculadas às demandas sociais, políticas, culturais, de saúde. “Temos que ter um melhor sistema de avaliação, ele não pode ser assentado sobre os pesquisadores apenas individualmente”. Outro aspecto levado em conta por Luciano Mendes é a internacionalização da pesquisa e não da publicação. “Para o desenvolvimento acadêmico e científico é fundamental discutir a geopolítica nacional e a relação entre o Sul. Pensar uma relação Sul-Sul é inclusive questionar a língua inglesa como língua franca da ciência e que nos coloca em subordinação. A nossa diversidade também deve ser expressada em nossa diversidade linguística”, afirmou.

Por fim, o professor da UnB, Martim Bottaro apresentou os dados de publicação de artigos científicos e, por outro lado, os índices de citação com o objetivo de levantar a reflexão sobre a exigência de se publicar quantitativamente, sem se preocupar com a qualidade do que é publicizado. Segundo ele, na área da Educação Física, por exemplo, o Brasil é o que mais produz entre os países da América Latina, mas com menor qualidade, a partir da análise de citações.

CCE

CCE

Reitor da UFG, Orlando Amaral, participou da abertura do evento, no domingo

Fonte : Ascom UFG

Categorias : Última Hora

Listar Todas Voltar